Todo mundo precisa de terapia? Uma resposta cristã

É comum ouvir a pergunta do título hoje em dia. Quando alguém discorda de você, logo vem a certeza: precisa de terapia. Quando alguém está triste: precisa de terapia. Quando alguém sente raiva: precisa de terapia. Essa questão envolve aspectos profundos da nossa fé, por isso é importante que seja discutida. Vale lembrar que, aqui, estou falando exclusivamente de psicoterapia, porém a frase se popularizou com o termo “terapia”.

Como estudante de psicologia, reconheço a importância da psicoterapia em alguns casos. Os transtornos mentais são reais, além de existirem traumas que, se não tratados, podem evoluir para algo maior e mais complexo. Não nego que haja graça comum na psicoterapia, mas como cristã sou veementemente contra a ideia de todas as pessoas precisarem dela, e aqui explicarei os motivos.

Do que realmente precisamos? É importante começar com essa pergunta. Quais são as necessidades básicas de um ser humano, ou, melhor ainda: quais são as necessidades básicas de um cristão? Claro que algumas pessoas necessitam de tratamento psiquiátrico e psicológico, a intenção não é negar essa realidade. Por outro lado, no contexto em que os transtornos mentais são hiper diagnosticados e a psicoterapia ganha cada vez mais apelo, precisamos ter cautela ao afirmar que ela é essencial para todas as pessoas.

Na clínica de psicologia podemos perceber que algumas pessoas simplesmente não têm demanda para tratar na terapia, e quando perguntamos sobre o objetivo de estarem lá, respondem: porque todo mundo tem que fazer, né?! Isso mostra a que ponto chegou uma frase mal elaborada.

A função da psicoterapia é desenvolver formas de lidar melhor com as emoções, pensamentos e/ou comportamentos do paciente. As particularidades e o método dependem da abordagem adotada pelo psicoterapeuta. No caso de transtornos mentais, por exemplo, a psicoterapia deve habilitar o paciente a conhecer melhor sobre a doença e, assim, capacitá-lo a responder diante das circunstâncias da forma mais adaptativa possível. Como existem muitas formas de psicoterapia, é difícil definir um conceito exato sobre o termo. Gosto de definir como um meio de se tornar consciente, ter uma melhor compreensão e desenvolver as habilidades de enfrentamento necessárias, de acordo com a demanda de cada paciente.

Algumas abordagens discordam, mas defendo que a psicoterapia deve ser pontual. Existem psicoterapias de longa duração, que podem durar anos ou até mesmo a vida toda, como a Psicanálise. Mas esse é um processo que pode acabar criando uma relação de dependência. É preciso ter um objetivo claro para o processo terapêutico. Quando não se tem uma meta bem definida, o paciente pode achar que estar sempre nesse processo é saudável, mas, na verdade, quando a psicoterapia gera dependência, ela está sendo mais danosa à saúde mental do que útil. Portanto, como em todo tratamento, a intenção é que o paciente se torne, com o tempo, independente do seu psicoterapeuta. 

De acordo com o imaginário popular, a psicoterapia se tornou um meio de alcançar a “felicidade”, ou a “auto realização”, uma forma de “auto aperfeiçoamento” e, levando às últimas consequências, algumas pessoas usam até mesmo o termo “salvação”. Aqui chegamos ao ponto central deste texto: um cristão não deve defender que todo mundo precisa de psicoterapia. Quando repetimos esse jargão, estamos concordando com a nossa sociedade relativista que diz que há um meio de redenção além de Cristo

Além do mais, em tempos passados, as pessoas procuravam direcionamento moral, e até a própria definição de moralidade, no cristianismo. Elas procuravam as igrejas, algum pastor ou até mesmo um amigo cristão. Hoje em dia, com a psicoterapia cumprindo o papel de definidora de moralidade, as pessoas não recorrem mais a esses meios. O primeiro passo, mesmo que o caso seja de angústia espiritual, é procurar um consultório. Em “O triunfo da terapêutica”, Philip Rieff faz uma análise assertiva dessa inclinação atual do homem para a psicoterapia mais do que para a religião:

O homem religioso havia nascido para ser salvo; o homem psicológico nasceu para ser agradado. A diferença foi há muito estabelecida, quando o “eu creio”, o brado do asceta, perdeu a precedência para “a pessoa sente”, o caveat do terapêutico. E se o terapêutico deve ganhar, então certamente o seu guia espiritual secular será o psicoterapeuta.

O homem moderno acredita que o “autoconhecimento” pode resolver todos os seus conflitos e problemas, deixando de lado a questão central: o que precisa ser salvo e mudado antes de tudo é o seu coração, e só a partir daí ele terá o comportamento verdadeiramente redimido. É preciso reiterar que a psicologia pode sim mudar o comportamento em certos aspectos, mas embora o braço da psicologia possa ser útil em alguns momentos, ainda assim, esse braço é curto demais para alcançar o coração. Por outro lado, a palavra de Deus “é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hebreus 12.4).

É bem verdade que se pode aprender bastante em um consultório, com um bom psicoterapeuta. Se não tivermos desenvolvido habilidades de enfrentamento ao longo da vida, é uma alternativa de lugar para se aprender. Mas será que também não encontramos algumas habilidades de enfrentamento na Bíblia? Será mesmo que Deus não tem nada a nos ensinar sobre a forma de encarar nossos problemas? Essas questões não se aplicam a pessoas com transtornos mentais, claramente, porque a Bíblia não fala sobre isso de forma específica, e essas pessoas precisam do tratamento profissional. Aplica-se, porém, aos que acabam psicopatologizando aspectos comuns da vida humana. Será que não perdemos, por exemplo, a graça de sofrer e chorar com Jesus quando a partir do menor problema já queremos marcar uma consulta? Acredito que estamos aos poucos deixando de aprender mais com Deus sobre esses processos comuns, que todos nós, seres afetados pela Queda, passamos.

O maior problema comum a todo ser humano é transcendente. Somos seres caídos, nascemos em pecado. As consequências disso nos afetam por completo, em todos os aspectos. A psicoterapia pode lidar com algumas dessas consequências do pecado, mas essas são consequências específicas que não são comuns a todos os seres humanos. Nem todos nós padecemos de transtornos mentais, por exemplo. Todos temos dificuldades, mas algumas pessoas são capazes de lidar com essas dificuldades sem precisar da terapia. Algumas pessoas encontraram tudo o que precisavam para superar um trauma em outras fontes, como na Bíblia ou na experiência comum (cuidado dos amigos, instrução dos pais, obtenção de repertórios sociais por meio do desenvolvimento do capital moral etc.). Isso não quer dizer que quem precisou da psicoterapia para tratar algo seja menos crente, porque nós fomos afetados em diferentes níveis pela Queda, seja no aspecto físico, moral ou psicológico. Nossas funções cognitivas, como percepção, atenção, memória e raciocínio foram afetadas de formas diferentes. Existem muitos fatores que fazem com que a recepção e a reação ao sofrimento sejam subjetivas, até mesmo alguns descrentes nunca precisaram de psicoterapia. Portanto, nossa capacidade de elaborar as dificuldades nem sempre é igual. Com tantas particularidades, o pecado continua sendo o que todos os seres humanos têm em comum. Logo, para resolver um problema geral e transcendente, é necessária uma solução transcendente.

Isso não é uma crítica aos cristãos que precisam de psicoterapia, é uma crítica aos que acreditam que ela é a luz do mundo, mesmo que não usem essas palavras. De fato, essa é uma área que tem tomado o peso de uma religião. Portanto, elevar a psicoterapia a um lugar que não lhe pertence é, muitas vezes, considerar que a salvação das nossas almas não é encontrada em Cristo somente, mas em “Cristo mais alguma coisa”. Isso me remete ao erro dos Gálatas, que não queriam rejeitar a obra de Cristo diretamente, mas queriam acrescentar penduricalhos a ela. Podemos agir da mesma forma, mesmo que inconscientemente, quando repetimos essa frase tão comum. Não podemos tratar como essencial a todos aquilo que é necessário para alguns. O anseio final de todo homem é pela transcendência e por algo que faça sentido, e assim dê sentido a todas as outras particularidades da vida, e isso a psicologia não é. Nossa sociedade continua caminhando cega para a redenção do homem psicológico, quando o que realmente necessita é da salvação em Cristo Jesus.

No entanto, apesar de Cristo ser suficiente para a salvação das nossas almas e da Bíblia ser suficiente para uma vida de piedade, minha visão não é a mesma do Jay Adams, criador do “aconselhamento noutético”, que descarta qualquer possibilidade de eficácia da psicologia. A Bíblia tem todas as respostas para aquilo que ela foi feita para responder, mas ela não nos ensina como tratar os transtornos mentais, por exemplo, porque essa não é a sua função, e isso não tira a sua suficiência nem importância. O que ela nos dá são princípios que podem ser aplicados a todas as áreas da vida. Portanto, a psicologia feita por um cristão deve estar submetida a tais princípios.

Todo mundo precisa de terapia? É sempre bom lembrar o óbvio: todo mundo precisa de Jesus, por meio dele temos acesso a Deus, esse Deus que dá sentido a tudo e concede graça comum para que usemos a psicologia se um dia precisarmos.

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